Gado desfila no Dia de Campo do Nelore JOP, uma amostra do plantel projetado há 10 anos.
Márcia Benevenuto | Foto: Márcia Benevenuto.

Um dia, o desejo empreendedor de realizar uma nova importação dos mais puros animais indianos para o Brasil aproximou ainda mais os amigos José Carlos Prata Cunha, da Fazenda Fortaleza, Orestes Prata Tibery Júnior, da Fazenda São João, e Pedro Augusto Ribeiro Novis, da Fazenda Guadalupe. E o objetivo de trazer uma base genética inédita e capaz de contribuir para a evolução da raça Nelore, que em nosso país é contínua, foi o estímulo para o investimento de esforços e recursos. O projeto, batizado de Nelore JOP, mais adiante teve a adesão dos criadores Gilson Katayama, da Katayama Agropecuária, José Roberto Colli, do Nelore Zeus, Carlos Alberto Mestriner, da Onix Agropecuária, e dos cinco filhos de Orestinho representados pelos irmãos Orestes Prata Tibery Neto “Bibo” e Angelo Mario de Souza Prata Tibery.

Quase tudo aconteceu a partir de 2004. Os parceiros determinaram um padrão de qualidade para o gado e, com base nele, enviaram uma missão de busca à Índia. A meta de encontrar animais equilibrados, produtivos e com altíssima expressão racial, além de vigor físico, ossatura forte e habilidade materna, no caso das fêmeas, desafiou e instigou os “olheiros” do JOP. O bom Nelore Indiano que historicamente foi empregado na lida do campo, em tarefas de tração, acabou substituído por tratores, e dez anos atrás já não era mais tão abundante como na época das importações de 1960 e 1962.

Os rebanhos diminutos que restaram preservados e selecionados foram identificados no circuito das competições de touros puxadores de pedra. Foi preciso muito esforço, investimento e, acima de tudo isso, argumentos sólidos para conseguir negociar o gado e levá-lo, de dentro das casas dos indianos, para o projeto de reprodução. “Nas feiras tradicionais, onde o gado fica à venda, normalmente não encontramos nada que nos agradasse. O gado bom, selecionado pelos anciãos nas aldeias, era o das competições. Não foi fácil negociar com os indianos, porque as vacas dão o leite da família e parem os touros atletas. São animais de estimação deles”, conta o criador Angelo Mário, que junto com o parceiro de garimpo Arlindo Messias esteve em todas as viagens acompanhado pelo guia e corretor indiano Ralidhar Reddy, enquanto o assessor Marcos Moura cuidava de desembaraçar e viabilizar os documentos da operação.

A expedição, que foi dividida em 4 etapas, durou 150 dias e percorreu mais de 12 mil quilômetros por dezenas de vilarejos em províncias indianas para reunir 35 doadoras e 4 touros, que formaram a base do projeto. O lote foi conduzido para a BAIF (Development Research Foundation), uma central de inseminação do governo indiano, onde passou a receber trato diferenciado. Durante os meses em que as fêmeas ficaram fechadas para atingir o escore corporal adequado ao manejo reprodutivo, foi viabilizada a exportação de equipamentos e até de um tronco de contenção, necessário para a execução dos procedimentos. Desse gado, o Grupo JOP obteve 1589 embriões e, desses, 759 já vieram para o Brasil. A fase de liberação foi uma das mais desgastantes de todo o processo. Nela os integrantes do JOP se aliaram aos criador Jonas Barcellos, da Fazenda Mata Velha, Abelardo Lupion, do Nelore Beka, e Antônio Pitangui de Salvo, selecionador de Guzerá da Fazenda Canoas. “Foram dois anos de muitas reuniões, muita negociação e extrema persistência dos parceiros para transpor tantos obstáculos e ter sucesso nessa empreitada. Os 835 embriões que foram produzidos depois ainda estão congelados na Índia”, explica o assessor pecuário Thiago Trevisi, atual gerente do projeto Nelore JOP, que tem conhecimento de todos os trâmites realizados. “Depois que os embriões chegaram ao Brasil, ainda tiveram que passar por quarentena no Lanagro (Laboratório Nacional Agropecuário) de Pedro Leopoldo, antes de serem implantados”, diz Trevisi.

Os nascimentos se concentraram abril e setembro de 2012, fevereiro e julho de 2013, e o período mais recente é o de maio deste ano.

10 anos depois, a realidade do rebanho

De todos os animais nascidos, um total de 250 segue na nova seleção. Uma amostra do expoente do rebanho, 24 machos e 29 fêmeas, foi apresentada no final do mês de julho, no 1º Dia de Campo do Nelore JOP em Guararapes, interior de São Paulo. Os parceiros receberam cerca de 100 visitantes na Estância Cachoeirinha. “O que já se nota com clareza é que tanto os machos como as fêmeas são muito precoces sexualmente e apresentam características de carcaça interessantes. Já utilizamos este ano, nos rebanhos de todos os parceiros, sêmen dos primeiros machos nascidos. Teremos em 2015, portanto, os primeiros produtos nascidos da primeira geração importada. As novilhas de 2012 também estão prenhes”, diz o criador Pedro Novis.

O público que participou do Dia de Campo pode observar o plantel de perto. Nos piquetes foi disposto o grupo mais jovem. Bezerros e bezerras fizeram pose ao lado das mães de aluguel. Os garrotes, novilhas e os animais jovens ficaram em exposição nas cocheiras e também desfilaram diante do público, que não economizou elogios aos animais.

“A nossa vivência no gado permite que a gente veja alguns aspectos importantes, principalmente precocidade sexual como um todo e rusticidade. Esse gado tem muito para voltar o nosso Nelore com um pouco de como ele era, onde o bezerro nasce e começa a mamar em poucos minutos. O Nelore é feito para o campo, ele tem que se virar sozinho. Se isso só já der certo, já valeu a pena tudo o que foi feito, porque a partir dessas linhagens nós vamos melhorar a produtividade, melhorar o ganho e melhorar nosso desempenho no campo. Sem dúvida nenhuma há muito mais características que esse gado pode contribuir como qualidade de musculatura e racial, que não precisamos nem falar”, declarou o assessor pecuário Fernando Barros.

O ciclo de criação que determina o tempo de cada etapa do projeto tem sido antagônico à velocidade e à ansiedade do mercado, mas os parceiros do Nelore JOP se mantêm fiéis aos conceitos de trabalho definidos anteriormente para essa seleção. “A decisão mais difícil foi estabelecer as políticas de comercialização da nova genética. Não somos um instituto de pesquisa e não recebemos qualquer subsídio do governo. Então precisamos ter receita, é obvio. Porém, temos consciência da responsabilidade acerca dos resultados que o projeto deverá proporcionar ao desenvolvimento da raça Nelore. É preciso avaliar os animais nascidos e sobretudo a sua progênie, mas deveremos de imediato iniciar a venda de sêmen e, num futuro próximo, a comercialização de tourinhos. De nossa parte, estamos extremamente confiantes e muito satisfeitos por esta contribuição que poderemos oferecer à nossa pecuária”, conclui Novis.

O lote de animais que foi garimpado na Índia precisou ser registrado pela ABCZ antes de serem iniciados os procedimentos de reprodução artificial. A entidade abriu um Livro Especial de Importação (LEI), com uma série única criada para a empreitada dos novos importadores. Os touros e doadoras receberam os nomes dos lugares onde nasceram, como um selo de origem e uma homenagem dos selecionadores às famílias dos antigos proprietários. No Dia de Campo do Nelore JOP, enquanto as progênies desfilavam no piquete central, os reprodutores Yellamaru, Jamphur e Chhelano eram citados pelo apresentador Nilson Genovesi. Já Chennai, Surya, Chakra, Nanpalli, Krishnanadi, Tekkali e suas conterrâneas roubavam a atenção e atraíam olhares, em um grande painel fotográfico.